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1

Meu nome é Jennifer

 

 

 

Quando seus olhos abriram, foi como se uma imensidão verde tivesse invadido todo o ambiente em grande contraste com o céu azul que fazia naquela tarde.

A profundeza daquele azul fez com que pensasse:

— Estou no céu. Meu Deus, desta vez exagerei, acho que morri!

A esta altura, as pessoas se agrupavam junto à jovem, como árvores rodeando uma clareira em uma floresta.

— Está viva! — exclamava um.

— Os olhos estão abertos! — dizia outro.

— Mas que olhos verdes... — completava um estrangeiro.

Rapidamente, uma policial fardada se aproximou para auxiliar a jovem estatelada na calçada, com os braços e as pernas abertas como se fosse uma estrela-do-mar tomando banho de sol em uma praia qualquer.

“Polícia? Será que eles prendem quem chega no céu sem aviso?”

A polícia fez uma rápida avaliação clínica e logo identificou que não havia ferimentos ou fraturas.

— O que houve? — indagou a oficial.

A jovem piscou três vezes, depois olhou para o céu como quem esperava uma resposta divina e respondeu:

— Acho que fui atropelada por um pão.

— Um... pão? — a policial franziu o cenho.

— Ou talvez tenha sido uma nuvem. Elas estavam muito rápidas hoje...

Um senhor de bigode grisalho, que segurava um sorvete, se aproximou e apontou para a bicicleta caída a dois metros dali.

— Foi aquela bicicleta, moça. Você tentou atravessar a rua olhando para o  alto.

— Ahhh... então foi isso! Céu 1 x ruiva 0.

A policial anotou alguma coisa no bloco de notas.

Um garotinho ao lado perguntou curioso:

— Moça, você é famosa?

— Ainda não, mas se isso sair no TikTok, talvez eu consiga um patrocínio de esparadrapo.

A policial respirou fundo.

— Senhorita, você precisa de ajuda médica?

— Só se vier com chocolate quente e alguém que segure minha dignidade, porque ela foi atropelada junto comigo.

Ao ouvir o questionamento, a ruiva estirada na calçada ouviu um clique, como o do pressionar de um botão, e viu seus últimos minutos retrocederem como o rebobinar da fita de um antigo videocassete.

Durante o rebobinar, uma voz ecoou dizendo:

— Você é muito desastrada, menina!

“Mamãe?!?!?!”, pensou ela, com o som daquela bronca soando tão familiar quanto cheiro de biscoito assando.

Outra voz ressoava, mais grave, como trovão no meio do deserto:

— Cuidado com este mundão, lá fora não é o Texas!

“Papai?!?!?!”

O filme parou.

Clique.

E de repente, como se o novo botão tivesse sido pressionado, a vida avança em um replay.

Lá está ela, de novo, parada na saída da estação do metrô.

Atordoada. Com tanta gente, números e letras rodopiando na cabeça como se alguém tivesse misturado a sopa de letrinhas com GPS.